“Junho foi arrasador, num sentido positivo”

2 years ago by in #tecnopolíticaLATAM Tagged: , , , , ,
Jornalista e pesquisadora, participou das jornadas de junho de 2013 no Brasil, primeiro como manifestante e, em seguida, como mídia-ativista. Investiga as redes de mobilização política no Brasil, com foco nas jornadas de junho e nos acontecimentos tecnopolíticos que se seguiram. É mestra em Comunicação e Cultura (ECo/UFRJ) e especialista em Mídias Digitais e Interativas” (Senac-Rio). Está atualmente no doutorado em Mídias Digitais, em programa conjunto da Universidade do Porto (Portugal), Universidade Nova de Lisboa e Universidade do Texas (Austin, Estados Unidos). Já atuou como analista de mídias interativas no Dia Online e como repórter no Jornal do Brasil, O Globo e EBC, além de trabalhos freelancer para a TV canadense CBC. Marcela elogia o legado de junho e observa com olhar crítico tanto os protestos apoiados pela grande mídia como os inimigos do chamado “governismo”.
Esta entrevista forma parte da pesquisa #tecnopolíticaLATAM
As jornadas de junho quebraram as lógicas das ruas e das redes do Brasil. Que pontos disruptivos você destacaria?

 
Acredito que junho rompeu com o “eu não tenho nada a ver com isso”. Tivemos uma pequena amostra do que viria, ainda em 2010, durante as primeiras eleições presidenciais com grande projeção da opinião pública nas redes sociais. O peso das redes sociais foi pequeno, se comparado ao que veio depois, em junho de 2013 e nas eleições presidenciais de 2014, mas foi uma boa amostra de que o brasileiro, tipicamente muito envolvido na interação em sites de redes sociais, não ficaria alheio a um movimento com a proporção de junho, ainda que, eventualmente, em princípio, preferisse não se envolver para “seguir sua vida em paz”. Junho foi arrasador porque ninguém conseguia não se envolver de alguma forma. Foi arrasador, num sentido positivo, para os movimentos sociais, que viram um sonho antigo de ocupar as ruas acontecer e, num sentido negativo, para o poder constituído, que ficou completamente perdido, sem saber como contornar a questão. E isso inclui tanto o governo, quanto o congresso, quanto a mídia corporativa. Passados dois anos, vejo junho como a abertura de uma caixa de pandora. Tudo isso saiu lá de dentro e ganhou vida própria, com novas articulações sociais e um processo de amadurecimento, ainda em andamento. Já é muito difícil, hoje, ver tanta gente na linha do “eu não tenho nada a ver com isso”, como se via antes de junho. E o poder público continua, claramente, sem entender a mensagem de que, embora os protestos tenham sido relativamente controlados, pelo menos aqueles massivos, que levaram milhões à rua em todo o Brasil, a insatisfação continua crescente e a tolerância a ela, cada vez menor. Junho mudou uma visão muito aceita, até então, no Brasil: de que o país não melhora porque o povo não exige seus direitos; “não tem porque não quer ter”. Agora, está claro que o Estado brasileiro não é democrático e que a luta primeira é pelo direito de exigir direitos. Isso pode ser empoderador.Os estudos de redes realizados sobre as jornadas de junho mostram que o Movimento Passe Livre perdeu o protagonismo das conversas depois do dia 13 de junho, depois da viralização das imagens da violência policial. Como você explica o fenômeno?

Acho que o MPL foi muito feliz em anunciar sua saída como protagonista do movimento de junho, quando viu uma caída para uma linha perigosa, muito conservadora e com traços até fascistas. Eu presenciei cenas assim no dia 20 de junho, no Rio. Algo que aprendi com junho é que todo movimento social (e aqui me refiro a movimento como dinâmicas sociais e não, necessariamente, um movimento social constituído) precisa de momentos de avanços e retroações. O que vi no dia 20 de junho, no Rio de Janeiro, foi o retrato de uma bolha: o movimento cresceu, muito, em quantidade, mas continuava completamente imaturo, em qualidade. Ou seja: vi muito do tipo “contra tudo isso que está aí”, mas sem que as pessoas parassem pra tentar entender o que era tudo isto que estava aí. Embarcar na campanha cretina do Jabor, contra o que ele chamou de “PEC da impunidade”, sem sequer entender o que a tal PEC dizia é uma clara amostra disso. Costumo dizer que só a qualificação política do brasileiro é capaz de salvar o Brasil e o MPL foi muito corajoso e sagaz em perceber, no meio daquele vendaval que vimos em meados de junho, que faltava muito amadurecimento político do brasileiro para conseguir colocar o movimento pelo transporte público gratuito e de qualidade em perspectiva, diante de todas as demandas que tomaram as ruas. O transporte público é o sistema arterial de uma cidade, é por onde as pessoas, os serviços e as relações humanas circulam e, por isso, ele é central para pensarmos a questão da violência urbana, do planejamento urbanístico, da criação de novos negócios que catapultem a reabilitação da cidade e do acesso ao ensino público, além das atividades de lazer. É também um dos setores em que há mais corrupção entre poder público e setor privado, e que afeta demais o dia a dia do brasileiro. Acredito que o MPL viu que aquele era o momento de dar um passo atrás, para dar dois à frente depois. Aproveitar o momento de mobilização para mobilizar mais nas bases e amadurecer o movimento, qualificar o debate e voltar mais forte depois. Acho que foi uma decisão bem acertada.

Que características tinha essa gigantesca conversa digital das jornadas de junho?
A primeira palavra que me vem à menta é confusão. Era uma conversa bastante confusa. Acho que por várias razões. Primeiro, foi o primeiro movimento de massa que o Brasil viu sem uma voz central. Percebi que as pessoas têm muito medo de ter opiniões políticas e de expressá-las. Tive muitos amigos e conhecidos vindo até mim pra perguntar o que eu achava disso ou daquilo, porque eles achavam alguma coisa, mas não tinham confiança naquilo. Percebi, pela primeira vez, que pessoas que nunca tinham se envolvido minimamente no debate político, agora, queriam fazê-lo, mas não sabiam como, tinham medo de estar falando besteira. Em segundo lugar, eram muitas coisas acontecendo ao mesmo tempo. Eu fazia parte de alguns grupos no whatsapp, listas de email, chats permanentes no Facebook e ficávamos todos os dias envolvidos no compartilhamento de informações, todos tentando juntar as peças coletivamente. Foi o momento em que a ideia de “inteligência coletiva” tomou forma de um modo completamente espontâneo e isso foi muito interessante. Era tanta coisa acontecendo ao mesmo tempo e numa velocidade impossível de processar sozinho, que a gente precisava desse debate pra conseguir pensar e diminuir a confusão que se instalava na cabeça, a cada novo fato. Em terceiro lugar, mergulhamos, definitivamente, numa guerrilha de informação que, acredito eu, veio para se instalar. Não só não sabíamos o que era verdade ou mentira, mas também não sabíamos se quem falava aquilo era realmente quem dizia que era. Muitas personas foram criadas como perfis públicos em redes sociais, muitas contas de identidade coletiva também e algumas estavam ali só para confundir e não para somar. Acho importantíssimo que o brasileiro atente para o fato de que vivemos hoje na era da guerra da informação.
 
Os partidos e organizações políticas clássicas, especialmente das esquerdas, tentaram chegar juntos nas manifestações, sobre tudo a partir do dia 20 de junho. Porém, não foram bem vindos. Alguma explicação?
Há muitos levantes populares acontecendo em diversas partes do mundo, há pelo menos 5 anos. Cada um com demandas bem locais, como aquelas relacionadas à praça Taksim e ao parque Gezi, assim como a tarifa de ônibus no Brasil. Mas todas estas demandas locais parecem-me mais um estopim do que uma causa primordial. Há sempre diversas demandas antes do estopim. Esse estopim é algum acontecimento que abre a caixa de pandora. Parece-me que uma questão central tem sido, repetidamente, em todo o mundo, falência do modo atual de fazer política. Há uma completa falta de confiança na política tradicional, não apenas de situação, mas todo o ecossistema de partidos políticos. Os levantes só se generalizaram porque não há mais partidos políticos que despertem alguma chance de dar respostas às insatisfações. Agora, as exceções são os partidos-movimentos espanhois e o Syriza na Grécia, mas eles já são frutos dos levantes populares que aconteceram por lá há poucos anos, também em função da descrença nos partidos tradicionais. Por que os partidos não foram bem-vindos nas jornadas de junho? Porque sabíamos que algum apoio mais próximo de algum partido político poderia cair, facilmente, para a cooptação. É a essa forma velha de fazer política que as pessoas querem agora se contrapor.
 
5O ecossistema das esquerdas defende a teoria de que junho foi uma revolta conservadora, de direita. Faz sentido, especialmente falando do Rio de Janeiro?
Não concordo com essa tese. Não acho que foi uma revolta conservadora, mas, sim, trouxe à rua também uma ala conservadora descontente, especialmente no dia 20 de junho. Neste dia, o perfil realmente mudou em comparação aos protestos anteriores. É um reflexo de um descontentamento generalizado no Brasil. Mas o movimento não foi, em si, essencialmente conservador. Longe disso…Os movimentos sociais clássicos, o ecossistema do PT, também tentaram explicar as revoltas de junho como uma consequência lógica da era do Fórum Social Mundial, lutas do MST, mobilizações sindicais…


Se levarmos em conta que o Fórum Social Mundial teve um papel muito relevante na composição do Movimento Passe Livre, em 2005, poderíamos interpretar assim… mas é complicado utilizar apenas uma linha de influência para explicar um movimento tão amplo. Acho que foi uma consequência natural da decepção com o PT. Até o PT chegar ao poder, havia alguma esperança de que um partido de esquerda na situação poderia gerar alguma transformação na forma de se fazer política no Brasil. Como isso não ocorreu e, ao invés da política governamental mudar, quem mudou foi a suposta esquerda, se tornando mais e mais conservadora, a rua mostrou-se como a única opção. Se alguém poderia ter evitado a explosão das ruas, essa pessoa era o Lula enquanto presidente. Se tivesse havido investimentos consistentes em educação, saúde e transporte, não apenas com injeção de mais verbas, mas com uma grande reforma nestes sistemas, o descontentamento, talvez, estivesse mais na ala conservadora. Como isso não ocorreu, a insatisfação e descrença na política tradicional intensificou-se e ir para a rua tornou-se a consequência natural disso…
Os participantes de junho rejeitaram as lideranças personalistas. A não hierarquia, a horizontalidade, foram características dos movimentos de junho?
Não posso falar do movimento de junho como uma experiência única para todos. Foi algo muito difuso e confuso de avaliar ou classificar. Mas, da minha perspectiva pessoal, tirei grandes lições de não-hierarquia, horizontalidade e organização sem lideranças personalistas. Vi uma profusão de iniciativas nascendo, da militância à mídia cidadã, e em todas elas havia uma forte preocupação com a horizontalidade e também uma negação de lideranças personalistas. Nesse sentido, junho foi uma grande escola.
Como dialogam os atores de junho e os movimentos sociais clássicos?
Acho que ainda há muitos rachas internos. Não apenas entre os atores de junho e os movimentos sociais clássicos, mas também dentro dos próprios. Ainda há muito o que amadurecer nesse sentido. E isso é urgente.Dilma Rousseff apareceu na mídia oferecendo diálogo e tentando estar escutando as redes-ruas. O governo entendeu?

Depende do que chamamos de “entender”. Se percebermos que, ao lançar a ideia de um pacto com os governadores, o governo federal conseguiu pulverizar as manifestações em esferas estatais, com gritos frequentes pedindo a derrubada de governadores de Estado, ao invés do foco no governo federal, podemos dizer que, sim, o governo entendeu. Mas com o be-a-bá da velha política: não resolveu nada, apenas tirou o foco de si mesmo. É interessante notar que, no início, embora o foco fossem as tarifas de ônibus municipais, havia uma nacionalização do movimento. Após o primeiro discurso da Dilma, pulverizou-se a luta pro âmbito estadual, até porque a repressão policial tornou-se pauta central também, e as polícias são comandadas pelos governos de Estado. Dilma ganhou fôlego aí.
Mas, claro, do ponto de vista do movimento, ela não entendeu nada. Primeiro, porque chamou os “líderes” para dialogar, num cenário em que a única coisa realmente clara era que não havia líderes e não se desejava que houvesse. Qualquer liderança que emergisse dali, naquele momento, seria oportunismo puro. Em segundo lugar, porque, num discurso de quase 15 minutos, em que ela teve tempo de falar sobre 5 pontos (os tais “pactos para mudar o brasil”), não mencionou, em momento algum, a violência policial. Como ex-militante no período da ditadura militar, violentada e torturada, esperava-se que a presidente tivesse uma postura mais crítica em relação ao militarismo da polícia, totalmente despreparada para atuar em um período de efervescência política, num país supostamente democrático.
 
Qual foi o principal legado de junho?
Acho que o legado de Junho está em construção. Houve um recuo das manifestações, mas muitas pontes e conexões foram criadas por causa de junho e dos meses seguintes. Em especial por causa das ocupações. Uma ocupação em um período de mobilização política torna-se um verdadeiro ponto de encontro. Lembro um dia que estava cheia de trabalho e parei só para levar à Câmara água e comida para os ocupantes. Achei que em 30 minutos estaria de volta em casa. Fiquei por lá quase 6 horas. Foram muitos encontros neste dia, que duram até hoje. Acho que estas articulações estão sendo amadurecidas, natural e lentamente. A cada ação de extrema repressão do governo, um novo grupo surgia e se unia aos existentes. Responder à insatisfação e à indignação com tiro, porrada e bomba Só aumenta a insatisfação, ao mesmo tempo que a forma de mobilizar amadurece. Acho que o legado de junho ainda é pouco visível, mas está amadurecendo devagar.
Um outro ponto importante é que houve algum avanço em relação à percepção da atuação criminosa da mídia corporativa. Junho são muitos movimentos agregados, de 2013 até aqui: as greves de professores em vários estados, as greves dos garis no Rio, as ocupações do Parque Augusta, da Marina da Gloria e do golfe olímpico; as ocupações de diversas casas legislativas em várias cidades. Há muitos atores sociais envolvidos em todos esses movimentos e todos eles sabem as mentiras que a Globo conta. Mesmo as pessoas menos envolvidas conseguiram perceber que algo não ia bem quando, em dois dias, o editorial do Jornal Nacional mudou de ideia e pediu desculpas. A opinião pública brasileira continua muito viciada no seu oligopólio de mídia, mas houve passos importantes nesse processo de perceber que algo não está bem ali.
 
Junho criou algum sistema rede novo? Surgiram novas conexões de grupos, coletivos, atores?
Sim, sem dúvida. Além de novos coletivos, em especial de mídia, grupos que já existiam passaram a ter mais contato uns com os outros. Junho criou elos que antes não existiam, inclusive entre indivíduos e não apenas organizações. Acredito que isto está amadurecendo silenciosamente e ainda podemos ter frutos vindos daí.
 
Como foi o ecossistema comunicativo surgido em junho e como evoluiu? Características?
No início, houve o choque com a cobertura da imprensa tradicional. Ir para um protesto e voltar pra casa para assistir ao noticiário era um exercício de paciência. Como não nos resignamos diante disso, o natural era que surgissem novos canais de produção e disseminação de informações. Muita gente que começou indo para a rua como cidadã(o) para protestar se deu conta de que poderia contribuir mais atuando de forma mais enérgica em um dos pontos centrais que nos levaram ao quadro atual: a cobertura irresponsável e tendenciosa da mídia tradicional. Esse foi o caso do Rio Na Rua, do Coletivo Carranca, da MIC, do Mariachi e tantos outros…. isso no Rio, mas há muitos outros exemplos pelo Brasil. Vi algumas pessoas comentando que não estavam no facebook até então e criaram um perfil só para poder acompanhar as notícias dos protestos, já que não era possível fazê-lo pelos jornais e pela televisão. Essa talvez seja uma das novidades mais importantes trazidas pelas jornadas de junho: o surgimento de algumas propostas alternativas para disseminar informação e contrapor-se ao discurso único da mídia corporativa. Claro, essas propostas também precisam amadurecer ainda. O trabalho de base não deve apenas ser feito no núcleo do movimento social, mas também no núcleo do midia-ativismo. Há muita técnica a ser aprendida e muito debate político a ser feito. Mas foi um passo importante, principalmente por introduzir uma prática de produção horizontal e colaborativa em um quadro de jornalismo tacanho e em estado de putrefação, por continuar operando de um modo muito velho e centralizador num mundo que já é novo e distribuído. O problema (para a mídia tradicional) é que seu modelo de negócios baseado em copyright não funciona em um ecossistema distribuído e horizontal. Acho que as Jornadas de Junho trouxeram à luz essa polarização de forma muito clara. E, se o mídia-ativismo precisa amadurecer, o jornalismo tradicional precisa se transformar completamente para ser sustentável nesse mundo novo.
 
O PT aposto pela polarização como estratégia eleitoral? Por que?
Acho que sim. Foi uma aposta errada do ponto de vista de “como as coisas devem ser feitas”, mas deu certo do ponto de vista eleitoral. Por que? Porque isso não foi apenas uma característica das últimas eleições. O Brasil está dividido e polarizado. Talvez seja uma consequência natural de trazer à tona problemas históricos que sempre ficavam debaixo do tapete. Eles não existem à toa. Existem porque o Brasil é polarizado demais. Provavelmente, sempre foi assim. Mas agora isso foi jogado pro alto pra todo mundo ver.
 
Desde os movimentos e as ruas se fala muito do governismo. Como você explicaria o termo para alguém que nunca escuto o mesmo?
Acho um pouco equivocada a forma como esse termo é frequentemente utilizado. Há um radicalismo nocivo na utilização deste termo. Numa eleição em que ninguém era capaz de ter convicção no seu voto (provavelmente, apenas o “voto nulo” tinha essa convicção) e em que a regra eram as opções ruins ou péssimas, acusar alguém de ser governista por ter feito uma opção é maldoso e anti-democrático. Eu não saberia explicar o que é este termo sem colocar esta crítica em primeira plano. Acho que acusar alguém de ser governista por votar no PT nessas condições é muito mais um ressentimento infantil do que uma postura política. Dito isto, eu diria que o governismo é a militância em favor do PT, uma defesa acrítica deste governo, uma tentativa de blindá-lo de qualquer acusação. Mas acho que é possível que, naquele momento da eleição, muita gente tenha achado mais prudente votar no PT, sem que isso faça delas governistas.
 
 
Tem existido cooptação política por parte do governo, dos partidos?
Todos sabemos que há mais de um grupo de “mídia independente” que, na realidade, são alinhadíssimos ao governo e, não à toa, volta e meia conseguem entrevistas exclusivas ou são convidados para “sessões de imprensa” no Palácio do Planalto. Isso também ocorre em alguns movimentos sociais organizados. Mas isso não é um fenômeno novo. As armas do Estado são velhas.
 
Quais são as diferenças da nova onda de protestos do Brasil, (março, abril) e as jornadas de junho?
As alas mais conservadoras saíram às ruas no dia 20 de junho e isso levou a um recuo da esquerda. O MPL já havia recuado e se absteve de atuar como um movimento organizado. Uma série de pessoas e organizações de esquerda também deram um passo atrás. Até então, havia duas manifestações por semana, toda 2a e 5a. Depois de 20 de junho, a esquerda recuou das ruas mas promoveu uma sequência de muitas assembleias populares, encontros para debate e ações de micropolítica para compreender por onde ir diante do avanço do conservadorismo nas manifestações. As demandas deles eram outras. Isso marcou o momento em que o movimento deixou de ser de “multidões” e passou a ser mais dividido. Agora, essa ala conservadora que foi, digamos, “renegada” pelos atores de junho,  voltou como protagonista. É natural.
As diferenças são muitas. Acho que os protestos de março e abril querem algo que é impossível e acaba por tornar-se um instrumento para manobrar massas facilmente: o fim da corrupção. Seria melhor propor formas de aumentar a transparência governamental de forma consistente para o futuro e isso envolve o controle de qualquer governo que venha assumir depois do governo atual. Talvez isso tenha muito a ver com outra diferença relevante: estes novos protestos têm líderes, aparentemente com muitos interesses pessoais nesse processo. Isso não aconteceu em junho de 2013.
 
Alguns estudos recentes mostram que o ecossistema de junho não entrou nem na polarização política dos últimos tempos, nem defende o governo nem participa nos novos protestos. Como você explica isso?
O ecossistema de Junho quer algo que ainda não é possível, mas cedo ou tarde, será. E nenhuma dessas propostas que estão aí (os protestos conservadores, o governo e a polarização do debate político) satisfaz. É melhor recuar para amadurecer fora dos holofotes. Acredito que é uma atitude coerente com suas demandas.
 

Podemos esperar alguma nova onda de protestos?

Acho que sim. Mas talvez demore um pouco. O fato é que, embora os protestos tenham sido relativamente controlados, o descontentamento é cada vez maior. E não vai diminuir. A tendência é que surja algum novo gatilho, cedo ou tarde. Aí vamos entender melhor se o ecossistema de junho amadureceu realmente ou se foi algo que se esvaiu. Ou seja, se Junho foi uma explosão pontual ou uma caixa de pandora que liberou as bases para outros movimentos mais coesos e transformadores.
Quais são as diferenças da nova onda de protestos do Brasil, (março, abril) e as jornadas de junho?
As alas mais conservadoras saíram às ruas no dia 20 de junho e isso levou a um recuo da esquerda. O MPL já havia recuado e se absteve de atuar como um movimento organizado. Uma série de pessoas e organizações de esquerda também deram um passo atrás. Até então, havia duas manifestações por semana, toda 2a e 5a. Depois de 20 de junho, a esquerda recuou das ruas mas promoveu uma sequência  de muitas assembleias populares, encontros para debate e ações de micropolítica para compreender por onde ir diante do avanço do conservadorismo nas manifestações. As demandas dessa ala conservadora eram outras. Isso marcou o momento em que o movimento deixou de ser de “multidões” e passou a ser mais dividido. Agora, essa ala conservadora que foi, digamos, “renegada” pelos atores de junho,  voltou como protagonista. É natural.
As diferenças são muitas. Acho que os protestos de março e abril querem algo que é impossível e acaba por tornar-se um instrumento para manobrar massas facilmente: o fim da corrupção. Seria melhor propor formas de aumentar a transparência governamental de modo consistente para o futuro e isso envolve o controle de qualquer governo que venha assumir depois do atual. As jornadas de junho tinham demandas ambiciosas, mas totalmente factíveis: o fim das remoções promovidas em nome dos grandes eventos esportivos, a redução da tarifa de ônibus, a melhora da saúde e da educação, a desmilitarização da PM, a auditoria dos contratos municipais com empresas de ônibus… Focar um movimento nacional em pautas impossíveis, como o fim da corrupção, sem sequer propor instrumentos concretos pra isso, é jogar com a justa indignação das pessoas. É perigoso pois pode manobrar o descontentamento para caminhos que estes indignados possivelmente não desejam.
Talvez isso tenha muito a ver com outra diferença relevante entre junho de 2013 e março/abril de 2015: estes novos protestos têm líderes, aparentemente com muitos interesses pessoais nesse processo. Isso não aconteceu em junho de 2013. Não havia o desejo por líderes. Sabíamos que essa eventual liderança seria puramente oportunista.

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