Raquel Recuero: «Ninguém conseguiu se apropriar dos protestos de junho»

5 years ago by in #tecnopolíticaLATAM Tagged: , , , , , , ,

Bernardo Gutiérrez

Raquel Recuero é jornalista, professora e pesquisadora do Programa de Pós-Graduação em Letras e do Curso de Comunicação Social da Universidade Católica de Pelotas. Suas áreas de interesse são redes sociais e comunidades virtuais na Internet, conversação e fluxos de informação e capital social no ciberespaço e jornalismo digital. Raquel Recuerdo, que fez alguns dos estudos mais influentes das jornadas de junho, responde esta entrevista via mail. A entrevista é parte da pesquisa #TecnopolíticaLATAM que desenvolvo para OXFAM

As jornadas de junho quebraram as lógicas das ruas e das redes no Brasil. Que pontos disruptivos você destacaria no processo?

O que nos nossos trabalhos apareceu como pontos divergentes dos protestos tradicionais foi principalmente a estrutura descentralizada, onde várias pessoas, com demandas diferentes e visões e posições políticas diferentes acabaram saindo às ruas juntas. Não há uma lógica de organização tradicional, organização de demandas e liderança, mas uma ação difusa, que pareceu decorrente de diferentes agendas e insatisfações.

Os estudos de redes realizados sobre as jornadas de junho mostram que o Movimento Passe Livre (MPL) perdeu o protagonismo das conversas depois do dia 13 de junho, depois da viralização das imagens da violência policial. Como você explica o fenômeno?

A violência policial certamente foi o estopim, mas além disso, o retrato desta violência pelos veículos de mídia tradicional (quando os jornalistas foram atingidos), as imagens que tomaram a mídia social e a rápida circulação dessas imagens inflamaram as pessoas. A violência contra alguns encontrou eco e empatia nas pessoas, e na sua insatisfação. Também, é claro, há o efeito manada. Conforme as pessoas foram dizendo que iam às ruas, mais gente foi se sentindo motivada a sair.

Que características tinha essa gigantesca conversa digital das jornadas de junho?

Principalmente, a pluralidade de agendas e, em comum, a insatisfação com o status quo. Essa é uma forma de protesto onde não temos os atores principais entre os tradicionais (sindicatos, comitês, associações e etc.), não há uma organização central. Temos pluralidade que, em comum, encontra eco na insatisfação. Mas quando olhamos, por exemplo, as discussões, vemos que os vários grupos foram se articulando em conjunto, e ao mesmo tempo, mas de forma horizontalizada, influenciados pelos amigos e conhecidos. Com isso, há uma cascata, onde as pessoas se motivam porque sua rede está motivada e sua rede está motivada porque outras estão. Há um contágio de pessoa a pessoa, mais do que uma articulação de nós mais centrais na rede (como as instituições que citei).

Em alguns casos, nós pobres da rede (perfis com poucos seguidores ou pouco conhecidos) foram muito influentes. Um estudo do MediaLab da UFRJ prova isso no Rio de Janeiro. Como você explica i isso?

Eu acredito que todos os nós foram importantes, principalmente por conta do «efeito manada». A insatisfação e a revolta que encontraram eco nas pessoas é influenciada pela «esfera pública» dos sites de rede social e pelas p1) As jornadas de Junho quebraram as lógicas das ruas e das redes do Brasil.

Que pontos disruptivos você destacaria?

O que nos nossos trabalhos apareceu como pontos divergentes dos protestos tradicionais foi principalmente a estrutura descentralizada, onde várias pessoas, com demandas diferentes e visões e posições políticas diferentes acabaram saindo às ruas juntas. Não há uma lógica de organização tradicional, organização de demandas e liderança, mas uma ação difusa, que pareceu decorrente de diferentes agendas e insatisfações.

Os partidos e organizações políticas clássicas, especialmente das esquerdas, tentaram chegar juntos nas manifestações, sobre tudo a partir do dia 20 de junho. Porém, não foram bem vindos. Alguma explicação desde a teoria das redes?

A manifestação foi construída a partir de uma lógica inversa de representatividade. Ou seja, a insatisfação das pessoas também é com o modelo de representação política, portanto, com os partidos que foram vistos como «farinha do mesmo saco» (e ainda são). As manifestações de junho apontaram para um desgaste das estruturas políticas tradicionais.
Um de seus estudos provou que algumas das pessoas que participaram nas conversas digitais de junho estavam longe dos protestos das ruas. Como foi a dimensão espacial das jornadas de junho e sua camada digital?
Então, essa articulação parece ter sido fundamental. Ao mesmo tempo em que as pessoas estavam nas ruas publicando informações, as pessoas que estavam em casa também atuaram de modo a fazer com que essas informações circulassem mais. Com isso, a idéia dos protestos e de sua adesão massiva foram rapidamente se espalhando e mais gente foi se sentindo motivada a protestar. Se você for contar o número de protestos e a velocidade em que foram ocorrendo e se espalhando por todos os estados brasileiros. O dia em que encontramos o maior número de protestos, por exemplo foi o dia 20, espalhados por cidades distantes e em vários estados brasileiros. Logo em seguida, os movimentos começaram a reduzir sua intensidade.

Os movimentos sociais clássicos, o ecossistema do PT, tentou explicar as revoltas de junho como uma consequência lógica da era do Fórum Social Mundial, lutas do MST, mobilizações sindicais…. Faz sentido?

Não, evidente que não. O que junho mostrou é o oposto, que há uma insatisfação com a representação política. Isso acabou influenciando a discussão no processo eleitoral e mesmo os novos protestos que começaram em Março deste ano. Há um desgaste dos partidos tradicionais, especialmente daqueles que estão no poder.

A grande mídia e alguns grupos conservadores tentaram se apropriar dos protestos. Conseguiram?

Pelo que vimos, parece que ninguém conseguiu se apropriar dos protestos. Houveram todo o tipo de tentativa, mas o movimento foi muito emergente e plural.

Dilma Rousseff apareceu na mídia oferecendo diálogo e fingindo estar escutando as redes-ruas. O Governo entendeu?

A lógica do governo de oferecer o diálogo com os líderes, que foi a idéia inicial, fez pouco sentido, porque não haviam líderes. As demandas eram por demais plurais para serem todas atendidas. Por isso acredito que esse diálogo não aconteceu e me parece que acabou sendo, inclusive, estopim para que a insatisfação fosse sendo somada a outras, que desencadearam uma posição mais anti-governo nas ruas.

Qual foi o principal legado de junho?

Creio que a emergência dessas novas formas de organização é o principal legado.

Junho criou algum sistema rede novo? Surgiram novas conexões de grupos, coletivos, atores?

Então, muitas coisas surgiram, mas é difiíil dizer até que ponto são legados de junho. Veja que durante as eleições, vários partidos e representantes tentaram se apropriar dos movimentos de junho e não encontraram eco. Não há eco porque há pluralidade demais. Por outro lado, outros apareceram, coletivos, e individuais.

Como se comportou o ecossistema ativista durante as eleições? Junho influenciou ou não?

Influenciou sim. Há muito mais ativismo e esse ativismo está muito mais presente nas movimentações sociais. A questão central é que este ativismo não é mais como era antes, tipicamente da esquerda. A direita também se tornou ativista dentro desta lógica e também passou a usar as estratégias plurais nas eleições e depois delas.

Quais são as diferenças da nova onda de protestos do Brasil, (março, abril) e as jornadas de junho?

Os movimentos de março/abril não são os mesmos de junho, mas obedecem à mesma lógica de insatisfação, de organização em pequenos grupos e de maior horizontalidade via mídia digital. A meu ver, há uma insatisfação muito grande com as políticas de governo, cujas raízes já estavam em junho. Só que agora essa instância de insatisfação virou-se contra o governo. O que me chama a atenção não é que existam protestos de opositores do governo, mas que os apoiadores estejam calados. Dilma, efetivamente, ganhou com mais de 50% dos votos. Mas seus eleitores também estão insatisfeitos e estão silenciosos. As raízes disso estão também em junho.

Alguns estudos recentes mostram que o ecossistema de junho não entrou nem na polarização política dos últimos tempos, nem defende o Governo nem participa nos novos protestos. Como você explica isso?

Junho não foi polarizado em termos partidários, mas foi resultado de insatisfação com o status quo que encontrou eco. Essa insatisfação é que vai gerar o agressivo debate eleitoral e a polarização deste debate. As coisas estão conectadas. Mesmo os protestos que vemos nesses últimos meses obedecem à lógica de demandas plurais (por exemplo, a favor da intervenção militar, contra a corrupção, anti-Dilma, contra o travamento do FIES pelo governo, contra o mais médicos, a favor do impeachment, e etc.) causadas pela insatisfação e organizados em pequenos grupos pela mídia digital. Não há uma agenda única e central, embora o eco seja principalmente anti-governo.

Podemos esperar alguma nova onda de protestos?
O fato desses protestos estarem sendo «chamados» mensalmente acaba reduzindo sua força, porque não há resultados imediatos. Mas dependendo de como a situação do país se encaminhar, poderão acontecer outros protestos.

Qual é a conexão regional e/o global dos protestos do Brasil? Algumas semelhanças com processos como o 15M – Indignados da Espanha, #YoSoy132 (México) ou Occupy Wall Street?
Todos esses protestos têm características semelhantes de organização, emergência, e o papel da mídia digital na sua organização.

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